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Compreender por que razão as narrativas sobre Jesus divergem — e algumas implicações

Tradução do artigo Understanding Why Narratives about Jesus Differ — and Some Implications, de Neil Godfrey, no site Vridar
2026-03-24

Aqui fica mais um excerto da minha investigação académica que também tem lugar aqui...

Ian Mills publicou recentemente o livro "The Hypothesis of the Gospels: Narrative Traditions in Hellenistic Reading Culture" (A Hipótese dos Evangelhos: Tradições Narrativas na Cultura de Leitura Helenística), que explica uma faceta importante da cultura literária na qual os evangelhos foram escritos. Trata-se de uma síntese da sua tese de doutoramento de 2021, "Reescrever o Evangelho: Os Sinópticos entre as Tradições Literárias Pluriformes".

"Hipótese" no título é uma transliteração da palavra grega usada pelos autores antigos para descrever um esboço básico de história bem conhecido, que podia ser retomado e reescrito com variações por outros autores. Os poetas e dramaturgos antigos, por exemplo, escreviam por vezes versões diferentes de um conto ou mito lendário e, desde que mantivessem "as personagens, os cenários e os acontecimentos essenciais de uma narrativa específica", tinham liberdade para fazer as alterações que considerassem adequadas. Os "elementos mais básicos" de uma história constituíam a sua "hipótese". A ordem dos acontecimentos podia mudar; até “quem fez o quê” poderia mudar; cenas poderiam ser acrescentadas; e assim por diante. Era entendido como uma espécie de competição literária. Um autor tentaria escrever uma versão melhor ou mais relevante de uma história conhecida. Por outras palavras, os autores dos nossos evangelhos pertenciam a uma cultura literária mais vasta, familiarizada com a prática de reescrever histórias básicas.

Platão e Xenofonte escreveram biografias bastante diferentes de Sócrates, por exemplo:

Estes aproximados contemporâneos de Justino, Ireneu e Clemente relatam a mesma leitura básica de Platão e Xenofonte. Relatos sobrepostos de Sócrates, concordam, são evidência de rivalidade literária entre os seus autores. [...] Todos estes leitores partilham o pressuposto de que escrever um livro com base numa hipótese estabelecida é um acto convencionalmente competitivo. (155)

Os evangelhos [...] reflectem uma certa competitividade inerente à escrita com base numa hipótese estabelecida. (Hipótese, 149)

Quantas vezes já ouvimos ou lemos que as diferenças nos relatos sobre Jesus são o resultado da exposição dos autores a diferentes tradições orais? Bem, agora temos um bom motivo para repensar esta suposição. Se um autor se sentiu suficientemente confiante para escrever um melhor relato sobre Jesus por qualquer motivo, então temos a explicação para o facto de diferentes evangelhos, por vezes, alterarem a ordem dos acontecimentos, por vezes acrescentarem ou subtraírem certos episódios, e assim por diante.

Não vi Mills explicitar esta implicação do seu estudo em The Hypothesis of the Gospels, mas ele salientou na sua tese anterior que não há necessidade de recorrer à tradição oral para explicar o que são claramente características comuns às práticas literárias existentes na época em que os evangelhos foram compostos. Os evangelhos são conhecidos por consistirem em blocos de mini-episódios. Não há necessidade de presumir que sintetizem o que foi transmitido oralmente, dado que os autores da época escreviam dessa forma noutras narrativas — incluindo “biografias” de filósofos ou mestres.

A estrutura episódica patente nos evangelhos foi uma escolha criativa que se tornou cada vez mais popular em diversos géneros nos séculos I e II d.C. A organização do ministério de Jesus em perícopes distintas não justifica, portanto, a visão crítica das formas que consideram os evangelhos como compilações de tradições orais que circulavam independentemente. (Rewriting, 198)

Há um outro ponto que gostaria de acrescentar ao estudo de Mills. Se narrativas bem conhecidas podiam ser reescritas na medida em que encontramos entre os autores antigos, então segue-se certamente que estas narrativas básicas não eram “verdades imutáveis”. Eram contos, mitos ou criações literárias passíveis de reescrita. Mills afirma que mesmo o género da história na Antiguidade continha narrativas básicas que podiam ser escritas, mas os exemplos que cita são a Guerra de Tróia e o Ciclo Tebano. Entendo que estas histórias em particular eram tão distantes no tempo, remontando à “era dos heróis”, que estes contos estavam, de facto, sujeitos a diversas versões históricas. Não tenho tanta certeza de que histórias "reais" mais recentes estivessem abertas a reescritas deste tipo. Luciano, do século II, por exemplo, troçava ferozmente dos historiadores, chamando-lhes potenciais mentirosos. É algo sobre o qual gostaria de ler um pouco mais. Talvez deva começar por este post antigo: https://vridar.org/2019/11/25/two-more-reasons-ancient-historians-fabricated-history/

Mills, Ian N. 2021. “Rewriting the Gospel: The Synoptics Among Pluriform Literary Traditions.” Doutoramento, Duke University.

Mills, Ian N. 2025. The Hypothesis of the Gospels: Narrative Traditions in Hellenistic Reading Culture. Fortress Press


VridarVridar (Reflexões sobre estudos bíblicos, política, religião, ética, natureza humana e curiosidades científicas) é um blogue com renome mundial de dois australianos, Neil Godfrey e Tim Widowfield. Distingue-se pelo rigor científico e grande curiosidade intelectual. Tem divulgado muitos dos estudiosos que propõem que Jesus não foi um personagem histórico, embora os autores do blogue se mantenham agnósticos dobre o assunto. Politicamente tem uma posição de esquerda, e tem defendido bastante os palestiniados.



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