Questionar a ressurreição (1/3)

Tradução do artigo Questioning the Resurrection, Part 1 (of 3), de Robert Conner, com interpolações de David Madison, no site Debunking Christianity
27 de junho de 2019

[Nota de David Madison: Este artigo foi escrito por Robert Conner, que me pediu para o rever e acrescentar os comentários que eu quisesse. Contribuí com cerca de 15% do que está prestes a ler.]

Cronologicamente falando, a primeira pessoa na história a mencionar um certo Joshua (Josué) de Nazaré foi Paulo de Tarso. Hoje em dia, Joshua de Nazaré é mais conhecido por Jesus — Jesus é a forma latinizada de Iēsous, a versão grega de Yehoshua, Joshua, que significa “Javé liberta”. Joshua, o herói da conquista de Canaã, personificava a esperança de que os senhores gentios seriam derrotados, pelo que Joshua era compreensivelmente um nome popular entre os judeus da Palestina ocupada pelos romanos. De facto, os arqueólogos descobriram mais de 70 ocorrências do nome Joshua/Jesus em sepulturas da Judeia.

A convicção de que Jesus tinha ressuscitado dos mortos era a base da crença de Paulo, o elemento essencial sobre o qual assentavam todas as outras afirmações, como o próprio Paulo deixou claro: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é inútil, e a fé que tendes também é inútil” (1 Coríntios 15:14). Para Paulo, a ressurreição foi o acontecimento crucial de todos os tempos, o ponto de viragem da história, a fonte da salvação eterna da humanidade: “… se confessares com a tua boca que Jesus é Senhor e creres no teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9). De facto, segundo Paulo, Jesus “foi constituído Filho de Deus com poder pela sua ressurreição dos mortos”. (Romanos 1:4)

De certa forma, temos a sorte de Paulo nos dar pistas suficientes para compreendermos o que se passava na sua mente. Gálatas 1:11-12 é um texto importante — e voltaremos a ele mais tarde para outras perspetivas — mas deveria fazer refletir aqueles que têm tanta certeza de que Paulo é de confiança: “Quero que saibam, irmãos, que o evangelho que preguei não é de origem humana. Não o recebi de homem algum, nem me foi ensinado; antes, recebi-o por revelação de Jesus Cristo.”

Pensem nisto: a mensagem de Paulo não era de origem humana; não a recebeu de homem algum e não lhe foi ensinada. Não achou importante — de forma alguma — falar com os discípulos que conheciam Jesus. Ele obteve tudo o que precisava de saber sobre Jesus através das suas visões deste homem morto. É claro que as suas visões eram uma garantia de que Jesus não estava morto. Porque é que os crentes aceitam a palavra de Paulo sem questionar? Os fanáticos de seitas fazem afirmações semelhantes há séculos.

A ciência por trás disto é conhecida. O Dr. David E. Comings (médico) afirmou: “A epilepsia do lobo temporal e as suas manifestações espirituais podem ter desempenhado um papel importante nas conversões religiosas de muitas figuras históricas e na origem de diversas religiões”. E: “Se o papel da epilepsia do lobo temporal na conversão de Paulo estiver correto, pode argumentar-se que, sem ela, o cristianismo nunca se teria tornado a religião dominante do mundo ocidental”. (O Homem Criou Deus? O Seu Cérebro Espiritual Está em Paz com o Seu Cérebro Racional?, pp. 366 e 364) Então, epilepsia ou contacto com o mundo espiritual? Esta não é uma questão difícil para aqueles que não dão muita importância às sessões espíritas. No entanto, para ter alguma esperança de convencer os crentes de que a ressurreição é um aspecto da literatura fantástica, é melhor não mencionar a palavra “ciência”. A própria Bíblia, aliás, fornece todas as provas de que necessitamos para abandonar esta ideia.

Dada a importância crucial da ressurreição, o ato mais importante de Deus desde a criação, bem como a pedra angular da salvação, seria de esperar — no mínimo — múltiplos testemunhos de contemporâneos e um relato claro e internamente coerente, consistente com outras fontes. Nas páginas seguintes, examinaremos os relatos da ressurreição para ver se cumprem estes critérios.

Segundo Marcos, Jesus predisse repetidamente a sua humilhação, crucificação e ressurreição.

Começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos especialistas na lei, fosse morto e ressuscitasse [dos mortos] ao terceiro dia. (Marcos 8:31)*

Ensinava aos seus discípulos, dizendo-lhes: “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão; e, três dias depois de morto, ressuscitará". (Marcos 9:31)

E, dizendo de novo aos Doze: «O Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos especialistas da lei, e estes condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos Romanos. Aí, insultá-lo-ão, cuspi-lo-ão, açoitarão e matarão; e, passados ​​três dias, ressuscitará». (Marcos 10:32b-34)

Os apóstolos testemunham a ressurreição pública do filho da viúva de Naim (Lucas 7:11-17), a ressurreição mais discreta da filha de Jairo (Lucas 8:49-56), a dramática ressurreição de Lázaro após três dias no túmulo (João 11:1-44), bem como as multidões que se reuniram posteriormente, na esperança de ver Lázaro, a quem Jesus ressuscitara dos mortos. (João 12:9) Jesus declara mesmo: “Eu sou a ressurreição e a vida.” (João 11:25) No entanto, apesar de todas estas previsões e de toda esta suposta experiência em primeira mão, os apóstolos continuam a ser os Doze Estarolas, mais burros do que pedregulhos, os tolos mais tolos da terra dos tolos — não conseguem compreender o que Jesus quer dizer com “ressuscitar dos mortos” (Marcos 9:32), mesmo depois de o Mestre os chamar à parte e Jesus explicar tudo. (Marcos 10:32)

Pedro é um exemplo dessa ignorância terminal. Jesus cura a sogra de Pedro (Marcos 1:29-31), Pedro testemunha a gloriosa transfiguração de Jesus (Marcos 9:2) e chega mesmo a caminhar com Jesus sobre as águas. (Mateus 14:22-33) Pedro vê Jesus multiplicar milagrosamente pães e peixes para alimentar uma multidão, expulsar demónios, acalmar uma tempestade, curar os paralíticos e os cegos, e Pedro declara sobre Jesus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mateus 16:16) Assim, quando as mulheres — não os apóstolos — descobrirem que o túmulo de Jesus está vazio e Pedro corre para ver com os seus próprios olhos (João 20:3-4), nunca adivinhará o que Pedro e os seus amigos fazem a seguir:

“Vou pescar”, disse-lhes Simão Pedro, e eles responderam: “Vamos convosco.” (João 21:3)


Robert Conner
Robert Conner é um autor secular e crítico do cristianismo que estudou grego, hebraico, aramaico e copta na Western Kentucky University em meados da década de 1970. Está identificado com o movimento de contraapologética e é autor de nove livros, incluindo The Jesus Cult: 2000 Years of the Last Days (O culto de Jesus: 2000 anos dosm últimos dias), The Death of Christian Belief (A morte da fé cristã) e Jesus the Sorcerer (Jesus, o feiticeiro). A sua bibliografia inclui títulos sobre o cristianismo primitivo, a magia, o Evangelho Secreto de Marcos e argumentos de contra-apologética contra a crença cristã.
Perspectiva Crítica: Em obras como O culto de Jesus, Conner defende que o cristianismo teve origem como uma heresia judaica e funciona como um culto caracterizado por delírios apocalípticos e "crença na crença". É conhecido por utilizar o Teorema de Bayes e a análise histórica para criticar as narrativas da ressurreição e o Jesus histórico.

Porque que mais faria depois da tão esperada aparição do Messias de Deus, que cura a sua sogra, realiza inúmeros milagres diante dos seus olhos, é transfigurado juntamente com Moisés e Elias enquanto a voz de Deus fala de uma nuvem, prevê a sua própria ressurreição e, três dias depois, encontra o túmulo vazio? Bem, aparentemente, iria pescar. E assim começa uma série de incongruências desconcertantes, relatos contraditórios, cenários improváveis ​​e “provas” que se parecem de forma suspeita com folclore disfarçado.

Dado o papel crucial da ressurreição de Jesus, não esperaríamos muitas testemunhas — pelo menos tantas como as que testemunharam a ressurreição de Lázaro ou a Transfiguração? Bem, então, temos más notícias e notícias ainda piores. Comecemos pela pior notícia: de acordo com os evangelhos canónicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — ninguém vê realmente Jesus ressuscitar dos mortos. Pense nisso por um minuto. Apesar das repetidas previsões de que ressuscitaria passados ​​três dias (Marcos 8:31; 9:31; 10:32-34), nenhum dos seus apóstolos aparece para ver o facto acontecer. Vamos repetir, só para termos a certeza: Ninguém. Vê. Jesus. Sair. Do. Túmulo.

Se acha que isto já é o pior que pode acontecer, prepare-se. Quando algumas das mulheres que seguiam Jesus visitaram o túmulo e o encontraram vazio, Marcos, o evangelho mais antigo, conta-nos: “E saíram a correr do túmulo, porque estavam a tremer e desesperadas, e não disseram nada a ninguém, porque estavam com medo.” (Marcos 16:8) E, por alguma razão, foi assim que terminou o primeiro relato do evangelho — sem qualquer crença prévia, declarada ou implícita, de que os seus discípulos esperavam encontrar Jesus ressuscitado dos mortos. Ora, é claro que Mateus, Lucas e João não podiam deixar que a história terminasse desta forma, mas quando a aperfeiçoaram teologicamente, introduziram ainda mais incoerência, confusão e contradição.

Primeiro, voltemos às mulheres que encontraram o túmulo vazio. Lembrem-se de que Jesus ensinou “claramente”, “abertamente” — a palavra que Marcos usa é parrhēsia, que significa “inequivocamente” (Marcos 8:32) — que morreria e ressuscitaria dos mortos ao fim de três dias, e quando Pedro tenta dizer-lhe que isso é um disparate, Jesus repreende-o nos termos mais fortes possíveis, com o famoso logion “Afasta-te de mim, Satanás!”. (Mateus 16:23) Mas quando João reconta a história da ressurreição, as mulheres propõem uma explicação natural — não sobrenatural — para o corpo desaparecido: “Levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram!” (João 20:13) Em suma, o icónico “túmulo vazio”, apesar dos Homens de Branco, não era prova de que Jesus tivesse ressuscitado dos mortos; segundo Marcos e João, era, em vez disso, uma fonte de confusão e de medo.

Muito já foi escrito, principalmente por feministas, sobre as mulheres “testemunharem” a ressurreição, mas, como já observámos, ninguém viu a ressurreição de acordo com os evangelhos canónicos. Além disso, os homens, que “deixaram tudo” para seguir Jesus" (Marcos 10:28), não ficaram impressionados com o “testemunho” das mulheres. Segundo Lucas, os Onze Amigos não acreditaram em nada disto: “Depois de regressarem do túmulo, contaram tudo isto aos onze e a todos os outros. As mulheres eram Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de Tiago, e as outras mulheres que estavam com elas e que tinham contado estas coisas aos apóstolos. Mas as palavras delas pareceram-lhes um absurdo, e não acreditaram nelas. Pedro, porém, levantou-se, correu para o túmulo e, baixando-se, viu apenas o lençol de linho que o prendia, e saiu, perplexo com o que tinha acontecido.” (Lucas 24:9-12) Perplexo com o que tinha acontecido?! Quanta ingenuidade deste Pedro!


David Madison
David Madison doutorou-se em Estudos Bíblicos na Escola de Teologia da Universidade de Boston em 1975. Durante nove anos, serviu como pastor em duas congregações em Massachusetts, até que o seu profundo interesse pela Bíblia foi ofuscado pelo ceticismo. Agora, décadas depois de ter obtido este diploma conquistado com muito esforço em estudos bíblicos e de ter abandonado o ministério por causa do que está (e do que não está) nele, o Dr. Madison tem algumas coisas a dizer sobre a sua investigação do pensamento e da crença cristã. Colabora no site Debunking Christianity, de John W, Loftus.
Escreveu os livros
Guessing about God (Ten Tough Problems in Christian Belief Book 1) [Tentando adivinhar sobre Deus (Dez problemas difíceis na fé cristã Livro 1)]
Ten Things Christians Wish Jesus Hadn't Taught (Ten Tough Problems in Christian Belief Book 2) [Dez coisas que os cristãos gostariam que Jesus não tivesse ensinado (Dez problemas difíceis na fé cristã Livro 2)]
Everything You Need To Know About Prayer But May Not Want To Admit (Ten Tough Problems in Christian Belief Book 3) [Tudo o que precisas de saber sobre oração, mas talvez não queiras admitir (Dez problemas difíceis na fé cristã Livro 3)]
God and Horrendous Suffering [Deus e o horrível sofrimento]

Se Jesus ensinou enfaticamente que voltaria à vida três dias após a sua crucificação, para não falar de ter ressuscitado outros como prova de que era "a ressurreição e a vida" (João 11:25), porque é que os discípulos não se reuniram no túmulo de Jesus na expectativa da sua ressurreição? E porque é que, perante o testemunho das mulheres e a descoberta do túmulo vazio, ainda não estavam convencidos? E se as previsões de Jesus sobre a sua morte e ressurreição forem retrocessos apologéticos destinados a explicar um acontecimento inesperado, a sua execução?

De acordo com o Evangelho de João, foi isto que aconteceu imediatamente após a morte de Jesus:

"Mais tarde, José de Arimateia, que era discípulo secreto de Jesus por medo dos judeus, pediu a Pilatos permissão para levar o corpo de Jesus, e Pilatos concordou. Então, José foi e levou o corpo. Nicodemos, que antes tinha ido ver Jesus à noite, trouxe uma mistura de mirra e aloés, cerca de trinta e quatro quilos. Então, pegaram no corpo de Jesus e envolveram-no em lençóis de linho com as especiarias, segundo o costume judaico de sepultamento. Havia um jardim no lugar onde foi crucificado, e nesse jardim havia um túmulo novo, onde nunca ninguém tinha sido sepultado." (João 19:38-42)

Diversos aspetos deste breve relato são improváveis, contradizem frontalmente a versão dos acontecimentos noutros evangelhos ou levantam ainda mais questões. Podemos começar por José de Arimateia, que Marcos descreve como um respeitado bouleutēs, ou “membro do conselho” (Marcos 15:43), um membro votante do Sinédrio, o tribunal judaico que condenou Jesus por blasfémia (Marcos 14:64). Segundo Marcos, a votação para entregar Jesus aos romanos, essencialmente uma sentença de morte, foi unânime, como exigia a lei judaica: “todos o julgaram merecedor da morte”. (Marcos 14:64) Então, José de Arimateia, membro do tribunal, votou pela condenação de Jesus à morte, apesar de ser um discípulo secreto?

E se, como afirma João, José e Nicodemos envolveram o corpo de Jesus em linho no dia da Preparação judaica, o dia anterior à Páscoa, então o contacto com um cadáver tornou-os cerimonialmente impuros, desqualificados de celebrar a Páscoa — “Mas alguns deles não puderam celebrar a Páscoa nesse dia, porque estavam cerimonialmente impuros por causa de um cadáver.” (Números 9:6) Aliás, qual a probabilidade de José entrar no pretório de Pilatos, o tribunal, para pedir o corpo de Jesus se o contacto com um gentio também o tornasse cerimonialmente impuro e o impedisse de participar numa importante festa judaica? (João 18:28) Se os relatos dos evangelhos forem precisos, José estava duplamente desqualificado de celebrar a Páscoa. Qual a probabilidade de uma figura judaica proeminente, membro do Sinédrio, desconsiderar um mandamento do Antigo Testamento? “[A Páscoa] é um dia que deveis celebrar; de geração em geração, celebrá-la-eis como festa ao Senhor, um estatuto perpétuo.” (Êxodo 12:14)

A narrativa da ressurreição de João introduz um problema adicional, uma discrepância gritante no calendário. Se Jesus foi preso, julgado e crucificado antes do início da Páscoa — o julgamento ocorreu “no dia da preparação da Páscoa, por volta do meio-dia” (João 19:14) — então era claramente impossível que Jesus comesse a Páscoa com os seus discípulos, como descreve Marcos: “Os discípulos saíram, foram para a cidade e encontraram tudo exatamente como Jesus lhes tinha dito, e prepararam a refeição da Páscoa.” (Marcos 14:16) Jesus pode ter realizado milagres, mas não pode ter morrido na véspera da Páscoa e, ainda assim, ter celebrado a Páscoa — morto numa versão da história, mas vivo noutra.

Os estudiosos que examinaram estes relatos à luz das leis romana e judaica identificaram problemas adicionais: Roma “normalmente negava o enterro às vítimas de crucificação” e “a lei rabínica especifica que os criminosos não podem ser enterrados em túmulos”. (Jeffery Lowder, Journal of Higher Criticism 8 (2001), 254-255) Seja como for, apesar dos registos históricos afirmarem que milhares foram executados na Judeia por crucificação, os arqueólogos desenterraram um único exemplo de enterramento de um homem crucificado: um osso do calcanhar perfurado por um prego, evidência física que sugere que os crucificados eram privados de enterramento e atirados para valas comuns ou deixados pendurados para apodrecer e serem devorados por aves de rapina.

Uma nota dissonante adicional surge ao comparar a história contada por Lucas com o relato de Mateus. Na história da ressurreição de Lucas, os Homens de Branco precisam de recordar às mulheres, que são algo ingénuas, a profecia de Jesus: “Lembrai-vos do que Ele vos disse quando estava na Galileia: ‘O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos homens pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia’”. (Lucas 24:6-7) Curiosamente, os “pecadores” que crucificaram Jesus recordam-se facilmente da sua profecia, sem que os Homens de Branco lhes recordem: “Senhor, lembramos que aquele impostor disse, enquanto ainda vivia: ‘Depois de três dias ressuscitarei’. Portanto, ordena que o túmulo seja vigiado, para que os seus discípulos não venham roubar o corpo e digam ao povo que ele ressuscitou.” (Mateus 27:63-64) Porque é que os inimigos de Jesus se lembram melhor das suas profecias do que os seus próprios discípulos?

O que nos leva novamente às mulheres que vieram ao túmulo. Marcos informa-nos que as mulheres foram ao túmulo, três dias após a morte de Jesus, “para ungir o corpo de Jesus” (Marcos 16:1). Mas, de acordo com o relato de João, José e Nicodemos já tinham embalsamado o corpo de Jesus e envolto-o em linho, em conformidade com o costume judaico de sepultamento (João 19:40). Num período semelhante, o corpo de Lázaro começou a cheirar mal (João 11:39). Será que as mulheres pretendiam mesmo desembrulhar o cadáver inchado de Jesus e ungir-lhe um unguento? Afinal, o corpo de Jesus estava na terra, na Palestina, na primavera, e não numa morgue refrigerada sob a supervisão de um médico legista.

Em Mateus, o evangelho predileto do cristianismo antigo, o autor abandona qualquer pretensão de relato histórico, ultrapassa os limites e leva os seus leitores a aventura no mato, através do deserto selvagem e inóspito da imaginação. Quem foi o autor desta viagem de êxtase espiritual é um mistério, mas, por conveniência, seguiremos a convenção e chamar-lhe-emos "Mateus". Uma pista de quão insana a história está prestes a tornar-se é dada pela reescrita que Mateus faz da narrativa de Marcos sobre as mulheres no túmulo — Mateus usa Marcos como fonte primária, citando ou parafraseando cerca de 95% do texto. Eis a descrição de Marcos sobre as mulheres junto ao túmulo: “Começaram a dizer umas às outras: ‘Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo?’” (Marcos 16:3)

Eis a solução de Mateus para o dilema das mulheres com o porteiro:

"Eis que houve um grande terramoto, porque um anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se delas, retirou a pedra e sentou-se sobre ela. A sua aparência era como um relâmpago, e as suas vestes brancas como a neve." (Mateus 28:12-13)

O momento da morte de Jesus, segundo Mateus, não é menos dramático:

"E, tendo clamado mais uma vez, entregou o espírito. E eis que... A cortina do templo rasgou-se ao meio, de alto a baixo; a terra tremeu, as rochas fenderam-se, os túmulos abriram-se e os corpos de muitos santos que tinham morrido ressuscitaram. Quando saíram dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e foram vistos por muitos." (Mateus 27:50-53)

Notaram tudo isto? Entre os prodígios sísmicos que acompanharam os momentos finais de Jesus na sexta-feira, os túmulos abriram-se e “os corpos de muitos santos que tinham morrido ressuscitaram”, mas permaneceram nos seus túmulos até domingo, “depois da ressurreição de Jesus”, antes de entrarem em Jerusalém, onde “foram vistos por muitos”. Curiosamente, este acontecimento eletrizante, nada mais nada menos que zombies sagrados, não é mencionado nem pelos outros evangelhos nem por quaisquer relatos históricos da época.

Continua…



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