Sim ao Sim

Tenho que fazer o meu dever de cidadão e apelar a que todos votem SIM no próximo referendo em relação à despenalização da interrupção voluntária da gravidez.

A questão é muito simples e tem a ver com duas concepções diametralmente opostas de ver o indivíduo: como um cidadão livre e soberano, dentro de um estado democrático, aceitando as regras necessárias para que possa viver em comum com os seus concidadãos, de um lado; do outro como um ser menor que tem que ser vigiado constantemente, tanto pela divindade como pelos padres, feiticeiros ou xamanes ou ainda pelo estado, para evitar que faça asneira.

As mulheres abortam há milhares de anos e vão continuar a abortar. As circunstâncias da nossa evolução fazem com que o acto de dar à luz seja sempre uma aventura com um certo risco. Assim, há um período, no início da gravidez, em que a mulher decide se se abalança a isso ou não. É uma cláusula de escape, necessária para a sobrevivência da espécie. Todas as tentativas do estado para proibir o seu exercício, sob o pretexto de aumentar o número de súbditos para o tirano, de aumentar o número de fiéis para as igrejas ou de limitar a liberdade sexual, nunca resultaram. (E a crise da Segurança Social? Será também um meio de minorá-la?)

A decisão de ter ou não uma criança é sempre difícil para a mulher. Há componentes possivelmente instintivos, afectivos, morais, até religiosos. Mas essa decisão é dela e só dela. O estado não tem que meter o bedelho no assunto.

Porquê? Porque tudo se passa dentro do seu corpo. O corpo de cada cidadão é um dos limites naturais mais óbvios para saber onde termina o exercício do poder do estado.

Se o cidadão não é senhor do seu próprio corpo, é senhor de quê?

A igreja católica é ferozmente contra isso. Não é um problema de respeito pela vida. Se a hierarquia católica se importasse com a vida humana, teria promovido o uso do preservativo como forma de prevenção da sida. Não. É muito mais interessante proibir o uso do preservativo para depois poder dizer aos infectados: Estão a ver? Vocês pecaram e por isso vão morrer.

Do mesmo modo, é muito mais interessante vigiar a mulher, intrometer-se no seu corpo (sans blague!) e culpabilizá-la, por estar a matar uma alminha que pertence a Deus.

Suponho que na maneira de pensar dessa gente deve haver um anjinho que vigia a vida sexual de cada pessoa e que, a seguir a cada queca, vai espreitar para ver se houve fecundação. Se houve, vai a um armário no céu buscar uma alminha nova e pendura-a no feto. Daí em diante, é uma criatura de Deus e a Ele pertence, não aos homens (e muito menos às mulheres, credo!).

A igreja católica pôs todos os seus recursos em acção, pôs todas as suas tropas na rua, porque a seu ver é uma batalha decisiva, na longa guerra entre humanismo e superstição.

A velha Eva, sempre culpabilizada, pecaminosa, a tal que levou Adão a comer o fruto proibido da consciência e da autodeterminação pessoal e por isso deve ser sempre castigada (na fogueira se for possível, num tribunal qualquer se não houver mais remédio), sim, querer essa Eva agora libertar-se e decidir que ela é quem sabe que filhos quer ter e quando? Inaceitável.

É uma batalha decisiva, sim, precisamente na defesa da soberania do cidadão, uma batalha decisiva na defesa do humanismo.

Humanistas, defensores da liberdade, defensores dos direitos da mulher, defensores dos direitos da criança, só há uma coisa a fazer:

VOTAR SIM NO DIA 11 DE FEVEREIRO!