Força militar e terrorismo

Resposta a um texto de José Pacheco Pereira, publicado no jornal Público e no seu blog Abrupto em 18/11/06.

As minhas razões pró-americanas

Texto de José Pacheco Pereira

Os resultados eleitorais americanos representam uma sanção popular sobre a política da Administração Bush na qual avulta a condenação dos resultados da sua política face ao Iraque. Este é um facto indesmentível, embora estejam longe de ser claras as consequências dos resultados eleitorais, exactamente na questão que parece ter sido central na vitória democrática, a condução da guerra no Iraque.

Para lá da ganga espessíssima de hostilidade em que está envolvido tudo o que diga respeito a Bush, o problema que subsiste desde o 11 de Setembro é o mesmo: estamos ou não em guerra, qual a natureza dessa guerra, como é que ela se pode ganhar. Já escrevi bastante sobre a questão de saber até que ponto se está (os EUA e também os europeus, queiram-no ou não) em guerra. Trata-se agora de, à luz dos resultados eleitorais americanos, discutir se houve ou não racionalidade nas decisões americanas que conduziram à actual situação no Iraque e saber se essas razões permanecem válidas, mesmo que a situação no Iraque acabe mal, o que é provável, mas ainda não é inevitável.

Soldado americano descansa depois de combates em Najaf (13/8/05, AP, foto Akram Saleh

Deixo aqui pelo caminho aquilo que já me parecia óbvio ter sido errado na condução americana do conflito: dependência diplomática da justificação da guerra pela acusação sobre as armas de destruição maciça, número escasso de tropas americanas para uma ocupação eficaz do Iraque, perda de controle da situação nos primeiros dias com as pilhagens, a dissolução das estruturas administrativas e do exército iraquiano, e a incompetência e a ingenuidade da "visão" de um Iraque fácil de controlar e sedento de democracia. Refiro-me apenas, para que não pareçam argumentos ex post facto, a observações e reservas que tenho vindo a fazer muito anteriores aos resultados eleitorais americanos. Foram erros que se pagaram caro, mas cujo "pagamento" eleitoral corre o risco de dar origem a outros erros que ainda mais caro se pagarão, em particular se a "pressa" de alguns democratas impuser uma retirada rápida do Iraque. Muitas coisas podem ser corrigidas com as tropas lá, nenhuma sem elas.

Voltemos à origem, aos dias seguintes ao 11 de Setembro. Os americanos, povo, partidos republicano e democrata, e Administração Bush consideram-se em guerra. Guerra contra quem? Contra o fenómeno do radicalismo muçulmano no conjunto de todas as suas ramificações, não apenas o fundamentalismo da Al-Qaeda, mas todo o arco de extremismo antiamericano (e de passagem anti-israelita) que geravam um pano de fundo de instabilidade intratável no Médio Oriente. Esta percepção de que seria necessário defrontar todo o radicalismo islâmico e não apenas um grupo fundamentalista foi uma consequência do impacto do 11 de Setembro. Havia risco numa opção mais vasta do que aquela que animara as administrações Bush pai e Clinton, mas não muito distinta e nalguns aspectos em continuidade. A primeira guerra do Golfo (Bush pai) e os ataques com mísseis ao Sudão (Clinton) eram precursores desta política. É verdade que o fundamentalismo muçulmano e o radicalismo antiamericano, muitas vezes com origem em sobrevivências do nacionalismo pan-árabe, noutras no jogo local de competição de ditaduras nacionais várias que se voltavam contra os EUA em função das suas alianças, não eram e não são sobreponíveis nas suas intenções e discurso, mas eram-no nos seus efeitos, na criação de uma zona quente do mundo, cada vez mais agressiva, melhor armada, mais instável.

Se havia que fazer alguma coisa de drástico e com maior alcance estratégico, e os EUA estavam dispostos a fazê-lo em 2002, tinha de se utilizar meios diferentes, visto que os anteriores não eram suficientes e os EUA não quiseram dar ao 11 de Setembro a resposta europeia: polícias e serviços de inteligência numa estratégia clássica de contraterrorismo. Resolveram ir mais longe utilizando as forças armadas porque queriam alterar os dados do problema e não apenas minimizar os estragos. Queriam inverter a relação de forças no Médio Oriente para ver se de uma vez podiam resolver dois problemas que lhes pareciam atingir os seus interesses nacionais de modo complementar: o problema do terrorismo e o efeito da instabilidade no Médio Oriente nos fornecimentos desse líquido estratégico, o petróleo.

Para mim, o cerne racional que conduziu à invasão do Iraque encontra-se na conjugação destas série de decisões: considerar como um acto de guerra os eventos do 11 de Setembro; resolver ir mais longe do que uma resposta antiterrorismo, acrescentando a disposição de intervir com forças militares, incluindo a invasão de países estrangeiros, de modo a actuar-se de forma suficientemente drástica para alterar a relação de forças no Médio Oriente a favor dos moderados. Esta ampliação da resposta agravou também os problemas a resolver. Ao mexer nos equilíbrios nacionais, de modo incipiente no Afeganistão, porque se garantiu o apoio do Paquistão, mas de forma relevante no Iraque, pelo papel do Irão, ter-se-ia que estar preparado para novas complicações e ter um plano estratégico de grande fôlego e longa duração. Não é líquido que os EUA o tivessem e que não tenham sido optimistas na possibilidade de conseguir resultados rápidos com economia de meios. Assim como menosprezaram o papel que a crescente divisão transatlântica teve no seu isolamento, logo numa maior dependência apenas das suas forças.

Seja o que for o que aconteça, as raízes do problema do radicalismo islâmico e os seus efeitos não mudam com o "diálogo", mudam só pela força ou pelo receio da força. Os atentados fundamentalistas não vão parar e podem, com o novo armamento biológico disponível, assumir um carácter de perturbação social sem paralelo no passado. A nuclearização do Irão mudará completamente o Médio Oriente e colocará em risco o estado de Israel. Podemos não querer ver nada disto e meter a cabeça na areia, ou podemos tentar responder como fizeram os EUA, nalguns casos mal, noutros bem (os EUA estão hoje mais protegidos do que a Europa de riscos terroristas).

Estamos perante um processo de longo prazo, cujas condicionantes não desaparecem lá porque não as queremos ver, e em que as batalhas perdidas são inevitáveis. Se olhássemos para a situação dos aliados em 1940-41 na sua luta contra Hitler e Mussolini, o resultado seria desastroso: derrota após derrota, perdida a França e com a retirada humilhante de Dunquerque. Churchill foi duramente atacado, mas, por muitos erros que cometesse, aquele era o lado, porque numa guerra há lados, mesmo quando Deus não parece estar em nenhum lado. Fica esta prevenção para que se perceba que este é um barco de que não tenho nenhuma intenção de sair, em particular quando ele atravessa os seus mais perigosos estreitos.

(No Público de 16 de Novembro de 2006)

Força militar e terrorismo

A minha resposta enviada a jppereira@gmail.com

Sobre o seu artigo As minhas razões pró-americanas, eu, que também sou pró-americano, mas doutra maneira, queria fazer seis reparos:

1 - A obsessão pela via militar, presente na política de Bush II, não é uma aberração mas sim uma constante da política norte-americana há muitos anos. Pelo menos desde o tempo de George Keenan e do seu Long Telegram. Não critico o uso de meios militares, tanto na Guerra Fria como agora. O que me espanta é uma espécie de pudor na política externa norte-americana em relação ao uso de meios políticos e subversivos contra os seus adversários, uma relutância em usar a sua esmagadora vantagem ideológica.

Durante a Guerra fria o investimento norte-americano nestes meios foi risível, comparado com o que gastaram em meios militares. As ditaduras comunistas foram essencialmente deixadas em paz para oprimir impunemente os seus cidadãos. As suas fraquezas, que acabaram por levar ao desmoronamento do império, nunca foram verdadeiramente exploradas, em contraste total com o investimento enorme da União Soviética e aliados em subversão.

No mundo livre, as forças democráticas foram fragilizadas pelo apoio oportunista a forças políticas anticomunistas mas antidemocráticas.

Em muitos lugares, esta política levou à clássica armadilha político-militar: a guerra de contra-insurreição.

Na Península Ibérica, no Extremo Oriente e em praticamente toda a América Latina, o apoio norte-americano a regimes iníquos criou milhões de simpatizantes comunistas. O inimigo do meu inimigo meu amigo é. Veja-se o que aconteceu em Portugal antes e a seguir ao 25 de Abril.

2 - Pensar que os meios militares são úteis contra o radicalismo árabe é o mesmo erro. Os meios militares têm o seu lugar, claro, mas o seu abuso faz crescer o radicalismo, campo de cultura do terrorismo.

Funeral de vítimas de bombardeamentos aéreos americanos em Ramadi (17/10/05, AP, foto Bilal Hussein

As condições políticas criadas pela campanha do Iraque levaram a um agravamento do radicalismo e a um alargamento da base política radical, bem como a um isolamento político dos governos, regimes e forças moderadas. A principal via de combate ao terrorismo, penso eu, é a cooperação e coordenação policial e da espionagem, o posicionamento moderado em termos diplomático e o estabelecimento de laços políticos e de diálogo cultural e filosófico com os meios muçulmanos (o chamado diálogo de civilizações).

A coalition of the willing, enunciada a seguir ao 11 de Setembro, era uma política essencialmente correcta. Pena é ter sido completamente abandonada.

Aqui na Europa, levou muito tempo e custou muito evoluir da teocracia medieval até ao liberalismo laico de hoje. Os movimentos políticos dos países islâmicos sentem-se pressionados a fazer também esse percurso (quiçá muito mais depressa, porque afinal de contas vivem no século XXI) mas sentem o seu caminho barrado, entalados entre o radicalismo religioso e a submissão humilhante às armas ocidentais. Será a inteligentzia ocidental capaz de ajudar os seus colegas islâmicos a fazer esse caminho? (Mas atenção, nada de meter as divergências debaixo do tapete, nada de concordar com tudo para tentarmos ser simpáticos).

3 - Lembro-lhe os anos 70, em que o terrorismo era importante na Europa. As Brigadas Vermelhas, os Baader Meinhof, as FP25 e até a ETA pareciam, durante os anos de chumbo, capazes de dominar a agenda política. Mas em pouco tempo tornaram-se irrelevantes, os seus dirigentes arrependeram-se, foram presos ou fugiram para longe. A acção policial e judicial foi importante, claro, mas estou em crer que mais decisiva foi uma alteração das condições políticas de fundo. De repente, ser terrorista deixou de ser cool. Podia analisar isto mais, mas não é preciso. Você é perfeitamente capaz de escrever o resto sozinho...

4 - Há também uma relação evidente entre a eficiência dos meios policiais e de espionagem e as condições políticas de fundo. Os bons (os que são assim considerados) podem recrutar as melhores pessoas, motivadas por idealismo e heroísmo. A sua acção pode ser tolerada ou até encorajada pela população. Os maus só podem contar com os criminosos e os oportunistas sem escrúpulos, motivados pelo dinheiro ou pelo poder. Confira a diferença entre o sucesso das espionagens alemã e aliada na II Guerra Mundial.

Quem são neste momento os bons e os maus, em Amã ou no Cairo?

5 - Os neocons norte-americanos destruíram, de forma inteiramente irresponsável, a política americana de mediação paciente do conflito do Médio Oriente que existia desde desde Camp David, para não falar já da crise do Suez. Toda a gente (até Blair, agora) diz que o caminho passa pelo restabelecimento da diplomacia. Mas reconstruir as ruínas do que levou muitos anos a criar não vai ser nada fácil.

Dizem os chineses: as ervas daninhas crescem sozinhas, mas os jardins têm de ser cultivados pacientemente...

6 - Como aconteceu no seguimento da Guerra do Vietname, a derrota norte-americana no Iraque, através da retirada, da derrota militar ou de uma combinação das duas, levará a uma série de tragédias políticas e humanas. Alternativas? Toda a gente sabe, está escrito em todos os livros, apesar de ser sempre esquecido: uma guerra de contra-insurreição não pode ser ganha por meios militares!

Trata-se de pessoas, milhões delas. Como o massacre está fora de questão, o melhor é pensarmos em formas de fazê-las mudar de opinião.


Os melhores cumprimentos, de um seu admirador muitas vezes discordante,

Carlos Cabanita


Se não se importa, vou pôr o seu artigo no meu site, bem como este texto.